hoje faz 4 anos e um mês que eu sai do seu apartamento. eu tinha me proposto a escrever todos os dias 27 de cada mês uma espécie de diário de bordo, para quando eu me espatifasse no chão, alguém encontrasse entre os meus destroços, essa caixa-preta, que não passa de um caderno azul, com letras mal escritas, quase hieróglifos, quase uma lingua que não existe mais. era esse o propósito. o que eu queria com isso? talvez exumar a minha morte. talvez eximir a minha culpa. se tem um criminoso nesse latrocínio, esse cara sou eu. o meliante. o larápio. o cara que se locupletou com seu corpo. roubei seu coração e não soube usá-lo, não soube para que servia. e tráfico de órgãos é cana. cana das bravas. sem fiança, sem nada. você não tem direito a limbo: é inferno sem escalas. as coisas não são por acaso. acabei de puxar a letra do all the things must pass, do george harrison. sintomático, sintomático como falar com você no dia que meu velho foi embora, ou encontrar você caminhando cabisbaixa entre os carros estacionados do shopping, com a cabeça longe, longe, longe e a triste certeza que não era em mim em quem você estava pensando. sabe quando as palavras se explicam sem sair da boca? a gente costumava ser bom nesse negócio de pensar as coisas juntos. sunrise doesnt last all morning.a cloudburst doesn't last all day. seems my love is up and has left you with no warning. its not always going to be this grey. você deveria estar pensando nesse cara novo, nessa sua vida nova, nesse seu emprego novo, nesse seu apartamento novo. eu não. eu não consigo me mexer e sair dos meus 15 anos. caminho, envelheço, conquisto algumas coisas e me olho no espelho e lá está o menino que acredita no romantismo de literatura barata e de canções de gosto dúbio. all things must pass. all things must pass away. a eterninadade é um pesadelo. é a história insistindo em não terminar nunca na frente dos seus olhos mesmo quando você não quer ver. como é melancólica a vida de um vampiro. passar a vida condenado a viver e repetir os mesmos erros. muitos erros. a tristeza de ver o destino pregando as mesmas peças e velhos truques e você caindo em todos eles. um depois do outro, caindo em queda livre neles. fingindo que não. no fundo, as pessoas gostam de ser enganadas. as pessoas julgam suas utopias mais possíveis de realizar que encarar a realidade e seus percalços que judiam com aquilo que a gente mais preza: nossos sonhos. nosso poder de nos enganar diante da platéia que nos assiste e nos aplaude sempre que escorregamos de novo. como é grande a tarefa de acordar todos os dias e escovar os dentes. um ato hercúleo, um ato maior que qualquer coisa. a perseverança da rotina. dos hábitos que nos guiam para a sanidade. a salvação, a benção da repetição, do ligar o automático e não pensar nos gestos, nos atos e nas consequências. andar, simples assim, um passo, outro passo e um novo dia, depois mais alguns passos e lá se foi uma semana, um mês, um ano, cinco anos, dez anos e fim. dez anos não demoram dez anos para passar, é muito mais rápido, acredite. perdoe-me se um dia , um segundo, um piscar de olhos, passou pela sua cabeça eu ser o sujeito que iria dividir o mesmo teto com você durante todos outonos da sua existência. sunset doesnt last all evening. a mind can blow those clouds away. after all this, my love is up and must be leaving. its not always going to be this grey. all things must pass. all things must pass away. porque se passou, você deveria estar louca. all things
must pass.
tanx mr farina, sempre tem mais em http://www.heartbrokenindisrepair.blogspot.com/